Thursday, 21 April 2022

Ciclo de Webinares 20AnosAP@UP - Webinar#4 - The Social Role of Green Spaces

17.30 às 19:00,  irá decorrer o quarto webinar do Ciclo de Webinares 20anosAP@UP, entitulado 

The Social Role of Green Spaces. Os oradores serão o professor Robert Ryan (Universidade de Massachusetts, Amherst) e o professor Rudi van Etteger (Wageningen University and Research), que nos irão apresentar a sua perspectiva sobre o papel que os espaços verdes desempenham na construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais saudável, e mais livre.
Em nome da organização dos 20anosAP@UP, venho convidar-vos para se juntarem a nós e participarem neste debate através do seguinte link

 






Que “Le Chant des Partisans” triunfe!…


 Leonardo Costa


Que “Le Chant des Partisans” triunfe!…


“O patriotismo é, fundamentalmente, a convicção de que um determinado país é o melhor do mundo porque a pessoa nasceu nele (...)”

GEORGE BERNARD SHAW


Para continuar a ler, siga este caminho.

Wednesday, 6 April 2022

Acerca do poder político em Portugal

 De Leonardo Costa:


Acerca do poder político em Portugal


O poder centralizado no rei sempre foi grande no país. José Mattoso diz que o Estado precedeu a Nação em Portugal. Já no século XIX, numa viagem marítima junto à costa, o rei D. Luis I perguntou a um grupo de pescadores se eram espanhóis ou portugueses. Os pescadores responderam que não: eram poveirinhos pela graça de Deus, do Reino da Póvoa. Referiam-se à Póvoa do Varzim. Ainda durante o período da reconquista cristã, a única região do país que teve um regime senhorial foi o Noroeste, diz José Mattoso. Mas era uma coisa de pequena escala. Mesmo nesta região, o poder do rei era grande.

O centralismo acentua-se com a 2a dinastia. Mas é com a 4a dinastia, depois dos Filipes, que a nobreza muda dos territórios para a corte em Lisboa. O facto foi marcante para a configuração centralizada de Estado que temos ainda hoje. As elites políticas e económicas do país são elites muito por se localizarem em Lisboa, junto do poder político central. E por isso, por muito provinciana que seja a sua origem, e é, uma vez em Lisboa as ditas elites sentem que, a partir do Terreiro do Paço, devem ter o monopólio das decisões. Não deixam que existam decisões que possam ser tomadas por aqueles que ficaram nos territórios. Em A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco retrata, magistralmente, o fascínio que Lisboa capital exerce nas nossas elites e deputados eleitos oriundos da província.

Há uns anos, no Porto, um grupo de cidadãos tentou falar com os deputados do seu círculo eleitoral (o distrito do Porto). Os deputados dos diversos partidos recusaram falar. Que falassem com os partidos, foi a resposta. Os deputados não representam eleitores. São pessoas nomeadas pelos partidos, menos livres na sua expressão política do que o cidadão comum, centradas nos jogos de aparelho nos partidos que lhes asseguram os lugares. Claro que há exceções. Temos excelentes deputados, como demonstraram algumas comissões parlamentares, mas não é a isso que o sistema convida.

Ou seja, o país tem um problema sistémico na relação entre os deputados eleitos e os eleitores que está por resolver. Os deputados são eleitos por círculos eleitorais distritais e a seguir é suposto representarem não os eleitores dos círculos de eleição, mas o “interesse nacional”, em abstrato. Isto significa que os partidos de que fazem parte lhes dizem o que devem representar, em concreto. Daí o uso e abuso da disciplina partidária.

Mais valia eleger metade dos deputados num círculo nacional, dando-lhes liberdade de pensarem pela própria cabeça na representação dos eleitores do seu círculo de eleição – os eleitores do círculo nacional. E para obrigar a explicitar as implicações territoriais do orçamento e das várias políticas públicas, ter uma 2a câmara de representação, com círculos de eleição territoriais, em que os deputados representassem os eleitores do respetivo círculo de eleição. Câmara baixa? Senado? O bicameralismo não é uma novidade na História de Portugal.

Quase meio século depois do 25 de Abril, esta parece-me ser uma dimensão importante de uma discussão fundamental a ter na sociedade portuguesa, no sentido do aprofundamento da democracia, representativa e participativa. As comemorações dos 50 anos do 25 de Abril são um momento interessante para o fazer. A Assembleia Constituinte que aprovou a Constituição de 1976, presidida por Henrique de Barros, foi das melhores de sempre. E o mesmo se passou com a Assembleia Constituinte que aprovou a Constituição de 1822. E nos quase 900 anos de existência do país Portugal, os quase 50 anos de democracia que temos tido desde o 25 Abril constituem, certamente, o período mais longo que o país viveu sem polícia política. Este traço de tolerância à diferença da nossa democracia deve ser valorizado, num momento em que por toda a Europa, também em Portugal, se têm vindo a afirmar forças políticas extremistas e xenófobas.

Leonardo Costa Docente e investigador da Universidade Católica Portuguesa Porto, 31 de março de 2022 Publicado no Público, Sexta-feira, dia 1 de Abril de 2022 

O Tartufo russo e a Europa

De  Leonardo Costa:

O Tartufo russo e a Europa


Estou muito de acordo com o que Álvaro Vasconcelos diz na entrevista que deu ao Porto Canal sobre a guerra Rússia-Ucrânia (https://forum-demos.com/2022/03/21/alvaro-vasconcelos- entrevista-sobre-a-guerra-da-ucrania/). O tempo passou e, como diria Molière, o czarete Putin foi revelando a sua verdadeira natureza de Tartufo, o hipócrita (Herr Tartüffe, no filme do Murnau https://www.youtube.com/watch?v=CoXxIyF93Z4).

De início a personagem chegou a ser vista como uma esperança de desenvolvimento em liberdade para a Rússia, país que tinha vindo de um período muito difícil: o período da terapia de choque que, nos anos 1990s, deu origem à classe dos oligarcas russos. E também chegou a ser vista como uma esperança de paz para a Europa e para o Mundo. A própria existência de uma estação espacial internacional suportava esta ideia.

Claro que existiam contradições no Ocidente e gente a olhar para o lado e a salivar com o dinheiro dos oligarcas russos. Como é habitual, when money talks bullshit walks e vários políticos e homens de negócios ocidentais fizeram por não ver o que lhes podia estragar os negócios. Em nome de valores, monetários, sacrificaram outros valores como, por exemplo, os direitos humanos, também da população russa. No mundo do crime, é habitual o direito à propriedade prevalecer sobre o direito à vida.

Como é dito na entrevista, antes da guerra Rússia-Ucrânia, a NATO estava nas ruas da amargura (num estado de morte cerebral, dizia Macron). Trump tinha-lhe dado uma pancada bem forte. A NATO estava dividida. Até que ponto Trump era uma marionete nas mãos do Putin? Não sabemos. Que seria, nesta crise, se Trump fosse o presidente dos Estados Unidos da América (EUA)? Também não sabemos. Creio que as coisas seriam bem piores. A Ucrânia estaria mais isolada, na sua luta pela sobrevivência, e a lei do mais forte não só seria exercida, do modo que está a ser exercida, como poderia vir ter a concordância americana. Assim, a primeira coisa a falhar, em toda a estratégia do czarete ou Tartufo russo, foi a reeleição de Trump em 2020 nos EUA. É que em 2016, o czarete interferiu, com sucesso, na eleição presidencial americana, contribuindo para a vitória de Trump.

Creio que o objetivo último desta guerra é afirmar um mundo multipolar dominado por autocracias. E que desse mundo fariam parte, como potências autocráticas principais, não só a China e a Rússia como também os EUA. EUA que, apesar do percalço de 2020, ainda seencontram no campo das possibilidades. E passando os EUA para o lado das autocracias, sobraria a Europa como bloco principal do lado das democracias. E ainda pode vir a sobrar.

Quanto à Europa, antes da guerra Rússia-Ucrânia, o Tartufo russo já tinha mostrado ao que vinha. Andou a financiar os partidos de extrema direita europeus, por exemplo, a Le Pen em França e o Salvini em Itália. Também poderá ter ajudado a financiar a universidade do populismo que o Steve Bannon, ex-assessor do Trump, montou num mosteiro medieval em Itália, perto de Roma (com o apoio de Salvini). As relações com o atual poder politico na Hungria não parecem ser más. Ora, os impactos económicos desta guerra sobre a Europa têm capacidade de desestabilizar, do ponto de vista político, as democracias europeias, de alimentar este tipo de movimentos de extrema-direita populista e xenófoba.

Para já a solidariedade é grande. Todavia, não estou tão certo que o mesmo venha a suceder quando as coisas apertarem, do ponto de vista económico. E as coisas vão apertar, desse ponto de vista, com o preço do petróleo cá em cima, com os efeitos de ricochete das sanções, com os esforços necessários a fazer na defesa, com subidas nas taxas de juro para controlar a inflação (que se traduzem, em países como Portugal, num maior serviço da dívida). Mais necessário se vai tornar, nas democracias europeias, reforçar as políticas redistributivas. Mas será que as nossas elites europeias o vão querer ou permitir? A miopia, a este nível, costuma ser grande. Não o fazer colocará em risco as nossas democracias.

Do ponto de vista ambiental, num prazo mais longo, uma subida do preço da energia pode até contribuir para acelerar a transição energética da Europa para as energias renováveis. Todavia, num prazo mais imediato, podemos ter uma desaceleração ou mesmo uma inversão da transição energética. Já se fala em reativar centrais de carvão e centrais nucleares. Vamos ter menos recursos para investir na referida transição (pois teremos de investir em armamento). Face à redução dos esforços de mitigação das alterações climáticas, tudo isto vai significar mais calamidades devidas às mesmas e mais esforços a fazer em termos de adaptação (como por exemplo, a construção de diques por causa da subida das águas do mar).

Terá sido a NATO, num estado de morte cerebral, a principal causa da guerra que o czarete levou à Ucrânia? Terá sido o tratado de Versalhes a principal causa da guerra que o führer levou à Rússia? Mais do que a NATO, o FMI e a sua terapia de choque está na base da ascenção dos oligarcas e do czarete na Rússia. Todavia, nem a NATO nem o FMI são responsáveis pelas ações do referido czarete na Ucrânia. No que refere ao tratado de Versalhes, sim, ajudou à ascensão dos nazis e do führer na Alemanha. Todavia, o referido tratado não foi responsável pelas acções do führer na Rússia.

Leonardo Costa
Porto, 22 de março de 2022

 

13ª conferência EES