Friday, 30 April 2021

 

                                                                

                                                                O Grito da Terra e o nosso

As alterações climáticas e as constantes agressões à Terra vieram mostrar-nos, ou expor desnudadamente, a sobranceria da primazia do homem sobre todos os outros seres a ponto de os dominar, violentar e maltratar a seu belo prazer. Não é mais possível fazermos de conta que nada se está a passar e que depois da pandemia tudo poderá continuar como dantes. Os mercados a crescerem, a voraz financeirização a criar cada vez mais desequilíbrios e assimetrias, os recursos a serem delapidados e a Terra a ficar doente e nós com ela.

Os objetivos do desenvolvimento sustentável foram traçados, mas esta cartilha da sustentabilidade que já começou pelo menos oficialmente com o relatório Brundtland em 1987 parece não estar a dar os seus frutos e as mudanças tardam. Os diagnósticos estão feitos, mas de facto, existe um enorme fosso entre as palavras e os atos.

Temos de ser capazes de deslocar a economia para os seus limites, de modo a confrontar-se consigo mesma nesse território agreste do limite. E aí, interrogar o oikos da economia no seu antropocentrismo cientificista e desvitalizado, reduzido a universalidades abstratas uniformes e vazias. Questionar esse oikos que tem por nomos uma racionalidade que assenta numa hipótese fundamental cristalizada no princípio da maximização dos agentes económicos, corroborada por outras hipóteses como a da informação completa dos preços correntes e futuros, rendimentos e gostos.  É preciso interrogar, sondar, articular e desarticular, apontar para outro plano, num movimento de deslocação que (des) estabiliza a ordem, ampliando o plano. E neste movimento de deslocação é preciso pensar o oikos e o nomos da economia e o êthos que o habita.

A deslocação deverá ser feita a partir da via ontológica que é um caminho que se faz a partir do comum do ser, do qual todos os seres participam, sem estratificação (géneros-espécies) nem hierarquização, mas em mútua dependência. Esta via “constrói-se ao caminhar” e conduz aos vários possíveis do ser em comum que encontra a sua força na partilha, no nós, na criação conjunta do mundo. Esta experiência do ser corresponde afetivamente e efetivamente à fruição do pleno exercício da energia vital, do qual todos os seres participam, porque ao contrário daquilo que soberbamente possamos pensar, os outros seres também agem.

Um mundo desvitalizado e mediatizado pela racionalidade económica, consubstanciado no homo oeconomicus é um mundo agrilhoado à abstração, a equivalências e representações. É um mundo de realidades “objetivas” no qual a vida não habita, está fora de jogo e em que o agir se reduz exclusivamente a um fazer, atrofiado, alienado, funcional, burocrático e desvinculado da vida.

A via ontológica manifesta o ser em comum e a vida de todos os seres, em que o ser humano passa a ser compreendido não a partir de si mesmo, mas a partir da vida da qual todos os seres comungam. Intensificam-se as diferenças, dá-se voz à singularidade e especificidade de cada um, através de uma ação que não se reduz apenas a um fazer, mas se abisma na intensificação da vida, não apenas a de sinal humano, mas a de todos os seres. Não há forma de viver que não implique o outro, porque toda a vivência é convivência e é para esse outro plano que queremos apontar.

A degradação da terra e o seu sofrimento, que também é o nosso, são hoje uma evidência. Talvez este grito da terra nos instigue na geração de novas formas de ação que levem à invenção de um mundo mais equilibrado.

 https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/o-grito-da-terra-e-o-nosso-730770

                                                                                              Conceição Soares

Thursday, 8 April 2021

The 10th EE&S Conference: Diversity and Inclusion in Human Resource Management


Unfortunately, Margarida Lousada, Senior Principal of Korn Ferry is unable to attend the conference. We are delighted to welcome Vanessa Fernandes Zdanowski, Co-Managing Director - Portugal and Senior Client Partner from Korn Ferry, who will talk about Diversity and Inclusion in HRM from the point of view of a consultant. 

We wish Margarida a fast recovery. 

Tuesday, 16 February 2021

 

 

Breve Reflexão sobre a Economia da Atenção

               A eclosão da pandemia por Covid-19 contribuiu para aprofundar a virtualização da actividade humana. O recurso a aparelhos e dispositivos interconectados tornou-se mais frequente. A sua utilização permitiu a satisfação de necessidades vitais, materiais e de cariz individual, bem como afectivas e de índole colectiva. O acesso a alimentação foi simplificado, diversas actividades laborais passaram a realizar-se remotamente, parte significativa da comunicação descorporalizou-se, para além de se ter digitalizado a fruição de bens culturais. Cresceu, assim, a exposição a uma quantidade abundante de informação que Michael H. Goldhaber (1997) considera fluir no sentido oposto ao da atenção humana. Por conseguinte, a atenção humana é, cada vez mais, direccionada para os ecrãs destes aparelhos e dispositivos, transformando-se num alvo a captar. Neste contexto, desenvolve-se um modo de produção capitalista (Celis, 2015), que Herbert A. Simon (1969) designa por “economia da atenção”.

               A noção de economia da atenção assenta na ideia de que, perante a abundância de informação e conhecimento, a atenção humana é escassa, logo, deve ser alocada de forma eficiente, entre as múltiplas fontes de que o indivíduo dispõe. De acordo com tal concepção, aumenta a relevância deste recurso, escasso e por consequência valioso, no processo de valorização do capital. Surgem, então, perspectivas críticas, que salientam a iniquidade dos impactos para o emissor e o receptor de informação (Festré e Garrouste, 2015). Neste âmbito, sugere-se que prestar atenção se transformou numa nova forma de trabalho (Jhally e Livant, 1986), a qual gera uma mais-valia de que o emissor se apropria, por se tratar de uma fonte de conhecimento sobre as preferências, os interesses e os hábitos dos indivíduos. Estabelece-se, assim, uma relação de poder assimétrica entre trabalho e capital (Celis, 2015), na medida em que a acumulação do último se alicerça na inexistência de remuneração do primeiro. Desta feita, torna-se necessário analisar os conflitos de poder e de conhecimento daí decorrentes (Vercellone, 2007), até porque se observa uma superior abrangência do controlo do capital sobre a vida humana (Marazzi, 2008). As fronteiras entre o tempo de trabalho e o tempo de lazer e entre o espaço de trabalho e o espaço de lazer diluem-se, sendo, inclusivamente, o receptor alienado da sua própria visão (Beller, 2006).

Já em 1938 Harold Hotelling aludiu à quantidade limitada da atenção humana, para a qual a procura excede a oferta. Nesse artigo, chega mesmo a equiparar a comercialização da “atenção que é expropriada ao público em geral” à acção dos barões usurpadores medievais. Tal comercialização, quando subordinada às regras da procura e da oferta, instiga a competição. Fruto do progresso tecnológico, o espectro da competição hodierna é mais amplo do que Harold Hotelling e Herbert A. Simon consideraram. O receptor é, simultaneamente, criador de informação, cabendo ao detentor da plataforma a apropriação da mais-valia. Estas plataformas transformam-se em espaços de reprodução do individualismo, nos quais os egos concorrem em torno da atenção. Byung-Chul Han (2018) refere-se aos indivíduos como montras que entram em disputa, num modo de produção centrado no eu e cada vez mais distante do outro. No seu entendimento, tanto a ética como a poética da atenção são suprimidas pela economia da atenção.

Perante um contexto de progressiva virtualização, cresce a pertinência do debate sobre eventuais políticas públicas que permitam reduzir a assimetria da relação de poder estabelecida. Harold Hotelling (1938), por exemplo, propunha restituir a atenção aos seus legítimos proprietários através da fiscalidade. A promoção de tal debate não exclui a assumpção de acções mais imediatas. Face a circunstâncias tão traumáticas, torna-se fundamental recuperar a ética da atenção e a ética da escuta, que Byung-Chul Han (2018) menciona. Porque, tal como entaltece, “a comunidade é o conjunto de ouvintes”, não existe sem escuta. E neste período nefasto, urge reforçar a coesão social.

João Moreira de Campos

Bibliografia:

1.      Beller, J. (2006), The Cinematic Mode of Production: Attention Economy and the Society of the Spectacle. New Hampshire: University Press of New England.

2.      Celis, C. (2015), Towards an Immanent Critique of the Attention Economy: Labour, Time, and Power in Post-Fordist Capitalism (Doctoral dissertation, Cardiff University).

3.      Festré, A. & Garrouste, P. (2015), “The ‘Economics of Attention’: A History of Economic Thought Perspective.” Œconomia. History, Methodology, Philosophy, 5(1), pp. 3-36.

4.      Goldhaber, M. H. (1997), “The Attention Economy and the Net.” First Monday [Online] 2.4. Disponível em: http://firstmonday.org/ojs/index.php/fm/article/view/519/440.

5.      Han, B. C. (2018), The Expulsion of the Other: Society, Perception and Communication Today. Polity Press.

6.      Hotelling, H. (1938), “The General Welfare in Relation to Problems of Taxation and of Railway and Utility Rates”. Econometrica: Journal of the Econometric Society, 6(3), pp. 242-269;

7.      Jhally, S. & Livant, B. (1986), “Watching as Working: The Valorization of Audience Consciousness.” Journal of Communication, 36(3), pp. 124-143.

8.      Marazzi, C. (2008), Capital and Language: From the New Economy to the War Economy. Los Angeles: Semiotext(e).

9.      Simon, H. A. (1969), Designing Organizations for an Information-Rich World. [Online]. Disponível em: http://zeus.zeit.de/2007/39/simon.pdf.

10.   Vercellone, C. (2007), “From Formal Subsumption to General Intellect: Elements for a Marxist Reading of the Thesis of Cognitive Capitalism.” Historical Materialism, 15(1), pp. 13-36.

Thursday, 11 February 2021

 

                       Filantrocapitalismo ou um simulacro da bondade                                 

 

O livro mais recente da médica italiana, Nicoletta Dentico intitula-se, Ricos e Bons?: As tramas sombrias do filantrocapitalismo. Neste livro a autora que foi ex-directora dos Médicos Sem Fronteiras de Itália questiona a “caridade” dos bilionários, dos que pertencem à classe do 1% mais ricos do planeta. Ted Turner, George Soros, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Warren Buffet e no topo Bill e Melinda Gates.

O filantrocapitalismo tal como a autora o define, “é aquela forma particular de filantropia que usa modelos, ferramentas, valores de mercado e da empresa para impulsionar, promover e também os impor na agenda social, na agenda dos direitos. Negócios e filantropia tornaram-se assim uma coisa só, e a filantropia torna-se a continuação do negócio por outros meios. No filantrocapitalismo, portanto, a fronteira entre lucro e sem fins lucrativos é anulada.” As palavras são duras e a critica dirige-se “a quem faz da filantropia uma forma de exercício hegemónico. Os que conseguiram apoderar-se até do último bastião deixado intocado pela lógica capitalista: o do mundo da solidariedade e da dádiva (…). A dádiva e a solidariedade fazem parte de todas as culturas. Em vez disso, essas pessoas conseguiram mudá-lo geneticamente, tornando-o uma extensão do seu poder económico e empresarial. Eu chamo-lhes ‘sacerdotes’ porque eles têm uma verdadeira ‘religião de mercado’. Quando intervêm, nunca olham para a origem do problema: encontram sempre uma solução técnica, biotecnológica, empresarial. A ideia é criar mercados para os pobres, o que é um desvio total das causas dos problemas. E, contudo, à sua volta há uma aura de veneração por parte de muitos governos, sobretudo do Norte do mundo.”

É fácil situar e datar historicamente “esta mutação genética” da filantropia, (amor/amizade pela felicidade e bem estar dos outros) para o filantrocapitalismo. Décadas de 1970 e 1980, o início e a expansão máxima da globalização. A primeira edição do Fórum de Davos foi em 1971. De 2000 a 2019, a perda progressiva da centralidade das organizações multilaterais. Um avanço cada vez maior do privado no público e o mito de que só o privado funciona bem e é eficiente. Esta mutação atinge o auge quando chega às Nações Unidas, o maior organismo público supranacional. No ano 2000, foi aprovado o Pacto Global das Nações Unidas, um pacto entre as Nações Unidas e as empresas. O acordo passa a ser “o cavalo de Tróia do sector privado, agora nas entranhas das instituições internacionais”. De facto, um ano depois nasceu o Fundo Global contra a Sida, a Tuberculose e a Malária, uma organização privada que responde à lógica do direito privado.

A sua grande crítica é dirigida ao bilionário Bill Gates. Nicoletta Dentico considera que é mesmo perigoso “porque está em toda a parte (…). Não existe área da vida humana em que ele não tenha decidido que tem receita para administrar: agricultura, finanças, alterações climáticas, saúde. O problema é: ele pode gastar muito dinheiro, mas não há um processo democrático em relação às suas decisões. Ele responde apenas perante si mesmo (…) Bill Gates e os outros são o resultado de um sistema económico e de uma falta de empenho, de uma transferência monstruosa de soberania política”. Esta crítica é suportada pela obra de duas investigadoras Alanna Shaikh e Laura Freschi na obra “Gates – A Benevolent Dictator for Public Health?, 2011 citadas no seu livro. Hoje é possível “ler um artigo sobre um projecto no sector da saúde financiado por Gates, escrito por alguém formado graças a um programa de jornalismo financiado por Gates, com base em dados coligidos e analisados por uma equipa científica financiada por Gates.”

Desde a década de 1980 a Organização Mundial de Saúde teve uma redução das contribuições dos Estados-membros e um aumento das ‘contribuições voluntárias’. A Fundação Bill e Melinda Gates é, em termos absolutos, a segunda maior financiadora depois dos Estados Unidos: 531 milhões de dólares em 2018-2019. E em quarto lugar está a Gavi Aliance, uma organização público-privada na qual a Fundação Gates tem 17% do fundo total. Nicoletta diz-nos que a sua crítica a Bill Gates é muito dura porque pensa que ele e outros são o resultado de uma falta de empenho, e de uma demissão dos poderes públicos em detrimento dos privados. Para a autora, “(…)  um mundo em que as realidades privadas governam os assuntos públicos é um mundo distópico.” 

Conceição Soares